quarta-feira, 15 de abril de 2015

Se os tubarões fossem homens

...haveria uma civilização no mar!

Bertod Brecht!









quinta-feira, 2 de abril de 2015

Acordei bemol!


Dormi Leminski...

                       "Acordei bemol.

                                     Tudo estava sustenido"...






Um deleite orgásmico, catarse... pra quem é, como eu, um kamiquase!


Projeto musical de Estrela - filha do homem - baseado na obra do pai e na música que paira por aí, mesmo quando se ouve o silêncio.






terça-feira, 31 de março de 2015

Peladinha

Peladinha

- Tá no campinho!!! Respondeu a mãe que, lavando roupa, vigiava o feijão na panela.
João saiu em disparada pela rua, entrou no Beco de Dona Luzia, sua mãe, e, como um sapo pulou o murinho do fundo. Menino encapetado! – alguém gritou da cozinha, de onde vinha um olor delicioso  - odor? – de dobradinha.

Na casa de “Dona Lourdes de Zé Baixinho” nem quis saber do milho perfumado que cozinhava na fogão a lenha do terreiro. Subiu o morro, ‘catou um cavaco’ e, como um gato, chegou até a “rua de cima”, no pé do Cruzeiro. Calçamento pontudo, mais um ‘cavaco’ e a cabeça do dedão ficou pra trás. “Desgraça!!! Peste!!! Capetaaaaaaaaa!!!”. Gemidos, onomatopéias... e mais um “Capeta!”.

Pausa rápida e lá estava o claudicante João a iniciar novamente a corrida. Desceu o morro e chegou na encruzilhada da casa de Leléu. Lá dentro o próprio, com habilidade que vinha de longe, segurava com os três primeiros dedos da mão um prato de mexido. De longe se via o ‘zoiudo’! - “ÔOOOh João!!! Oncevai??? João??!?!!”. Nem ouviu... Já ia longe na trilha detrás das casas do Pirulito, sentido sítio do João Lucas, a caminho do campinho.

Sentia o vento no rosto e a estradinha era a própria vida que se abria à sua frente! Pelos gritos que já podia ouvir conseguiu identificar, antes de vê-los, Tiago, Rodriguinho e Tássius. Como de fato! Lá estavam os três... “Seus viados! Nem me esperaram!”.


Sem mais delongas, fez-se a formação clássica do ludopédio da várzea dos Lucas... Dois de cada lado, oito pés imundos e quatro cabeças sonhadoras. Naquele campinho no fim do mundo, quatro amigos jogavam, sem saber, os minutos mais lindos de uma longa partida...


terça-feira, 24 de março de 2015

Aldo Bastos e José Régio

Na vontade de conhecer Aldo, acabei com ânsia de conhecer Régio!









sexta-feira, 20 de março de 2015

Saudade, eterno filme em cartaz.


Olha o que acontece quando Moska e Chico César resolvem compor juntos...

Música doída como a própria saudade...






Saudade

Saudade, a lua brilha na lagoa
Saudade, a luz que sobra da pessoa
Saudade igual farol
Engana o mar, imita o sol
Saudade, sal e dor que o vento traz
Saudade, o som do tempo que ressoa
Saudade, o céu cinzento a garôa
Saudade desigual
Nunca termina no final
Saudade, eterno filme em cartaz
A casa da saudade é o vazio
O acaso da saudade, fogo frio
Quem foge da saudade
Preso por um fio
Se afoga em outras águas
Mas do mesmo rio.


terça-feira, 17 de março de 2015

Drummonstro!


"Amar" e "O amor bate na aorta"...

Aos apaixonados por Drummond e aos apaixonados propriamente ditos!
















terça-feira, 10 de março de 2015

Pipa

Foto de Fábio Teixeira

Não queria mais a pipa. Os dedos cortados de cerol, calejados de cortar taquara, se agarraram na escadinha de metal que o levou da laje. Nunca mais voltou ao teto de sua casa e a pipa, solta no espaço, ia, serpenteando entre urubus, no céu azul de sua infância.  De volta ao chão decidiu ser o ‘homem’ que seu pai, insensível, tantas vezes lhe exigia ser. Ele que, aos nove anos, nem sabia o que era preciso para ser, então, ‘homem’.
A linha, partida, deu à pipa liberdade e ao menino os pés no chão. A partir daquele dia, dia a dia, durante o correr inexorável dos anos, o homem-menino cresceu. E suou, trabalhou, chorou, não entendeu, correu, bateu marreta, casou, amou?, multiplicou, testemunhou, juntou, colheu, gastou, envelheceu; se cansou.
E numa tarde amarela de agosto, os olhos perdidos no céu, o velho-menino se transformou em uma linda pipa azul.

Catas Altas, janeiro 2015



terça-feira, 3 de março de 2015

Neruda

Uma amiga me disse que "quando a gente começa a curtir mais vinho que cerveja, mais jazz que rock e mais Neruda que Quintana é porque algo de muito grave está acontecendo".

Sempre li muito Neruda e já vi o "Carteiro" algumas boas vezes. Mas é difícil tolerar Neruda muito tempo... É como se recebêssemos a visita daquele amigo 'crisento' e choroso, cheio de conflitos amorosos que não se resolvem, cheio de desamores e amores vãos. No primeiro dia de sua estada nos provoca compaixão, no segundo desespero e no terceiro ânsias de vê-lo em despedida. Ler um típico poema dele é bom, no segundo quase sempre não se quer chegar ao terceiro...

Talvez seja por isso que gosto do "Para nascer, nasci"! Neruda um pouco menos meloso, talvez um pouco mais metafísico, contador de histórias e "causos", mais narrador, menos sofrido.

Mas, fato é que algumas coisas de Neruda às vezes nos pegam pelo pé, de súbito e pronto! Lá estamos nós na sala de casa, o amigo chorando à frente e por dentro uma recíproca vontade de soluçar!

Segue, Pablo!






...




segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

O amor

Um pouco de Gibran Kahlil...
Cada vez que releio "O Profeta" tenho sensações diferentes. Reler é, de fato, melhor que ler!




O Amor

E alguém disse:
Fala-nos do Amor:

- Quando o amor vos fizer sinal, segui-o;
ainda que os seus caminhos sejam duros e difíceis.
E quando as suas asas vos envolverem, entregai-vos;
ainda que a espada escondida na sua plumagem
vos possa ferir.

E quando vos falar, acreditai nele;
apesar de a sua voz
poder quebrar os vossos sonhos
como o vento norte ao sacudir os jardins.

Porque assim como o vosso amor
vos engrandece, também deve crucificar-vos
E assim como se eleva à vossa altura
e acaricia os ramos mais frágeis
que tremem ao sol,
também penetrará até às raízes
sacudindo o seu apego à terra.

Como braçadas de trigo vos leva.
Malha-vos até ficardes nus.
Passa-vos pelo crivo
para vos livrar do joio.
Mói-vos até à brancura.
Amassa-vos até ficardes maleáveis.

Então entrega-vos ao seu fogo,
para poderdes ser
o pão sagrado no festim de Deus.

Tudo isto vos fará o amor,
para poderdes conhecer os segredos
do vosso coração,
e por este conhecimento vos tornardes
o coração da Vida.

Mas, se no vosso medo,
buscais apenas a paz do amor,
o prazer do amor,
então mais vale cobrir a nudez
e sair do campo do amor,
a caminho do mundo sem estações,
onde podereis rir,
mas nunca todos os vossos risos,
e chorar,
mas nunca todas as vossas lágrimas.

O amor só dá de si mesmo,
e só recebe de si mesmo.

O amor não possui
nem quer ser possuído.

Porque o amor basta ao amor.

E não penseis
que podeis guiar o curso do amor;
porque o amor, se vos escolher,
marcará ele o vosso curso.

O amor não tem outro desejo
senão consumar-se.

Mas se amarem e tiverem desejos,
deverão se estes:
Fundir-se e ser um regato corrente
a cantar a sua melodia à noite.

Conhecer a dor da excessiva ternura.
Ser ferido pela própria inteligência do amor,
e sangrar de bom grado e alegremente.

Acordar de manhã com o coração cheio
e agradecer outro dia de amor.

Descansar ao meio dia
e meditar no êxtase do amor.

Voltar a casa ao crepúsculo
e adormecer tendo no coração
uma prece pelo bem amado,
e na boca, um canto de louvor.


terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Justiça a outro Mal-Amado.

Justiça a João!
Em breve, Raimundo.


Os Três Mal-Amados

A fala de JOÃO:

Olho Teresa. Vejo-a sentada aqui a meu lado, a poucos centímetros de mim. A poucos centímetros, muitos quilômetros. Por que essa impressão de que precisaria de quilômetros para medir a distância, o afastamento em que a vejo neste momento?

Olho Teresa como se olhasse o retrato de uma antepassada que tivesse vivido em outro século. Ou como se olhasse um vulto em outro continente, através de um telescópio. Vejo-a como se a cobrisse a poeira tenuíssima ou o ar quase azul que envolvem as pessoas afastadas de nós muitos anos ou muitas léguas.

Posso dizer dessa moça a meu lado que é a mesma Tereza que durante todo o dia de hoje, por efeito do gás do sonho, senti pegada a mim?

Esta é a mesma Teresa que na noite passada conheci em toda intimidade? Posso dizer que a vi, falei-lhe, posso dizer que a tive em toda a intimidade? Que intimidade existe maior que a do sonho? a desse sonho que ainda trago em mim como um objeto que me pesasse no bolso?

Ainda me parece sentir o mar do sonho que inundou meu quarto. Ainda sinto a onda chegando à minha cama. Ainda me volta o espanto de despertar entre móveis e paredes que eu não compreendia pudessem estar enxutos. E sem nenhum sinal dessa água que o sol secou mas de cujo contacto ainda me sinto friorento e meio úmido (penso agora que seria mais justo, do mar do sonho, dizer que o sol o afugentou, porque os sonhos são como as aves não apenas porque crescem e vivem no ar).

Teresa aqui está, ao alcance de minha mão, de minha conversa. Por que, entretanto, me sinto sem direitos fora daquele mar? Ignorante dos gestos, das palavras?

O sonho volta, me envolve novamente. A onda torna a bater em minha cadeira, ameaça chegar até a mesa. Penso que, no meio de toda esta gente da terra, gente que parece ter criado raízes, como um lavrador ou uma colina, sou o único a escutar esse mar. Talvez Teresa...

Talvez Teresa... Sim, quem me dirá que esse oceano não nos é comum?

Posso esperar que esse oceano nos seja comum? Um sonho é uma criação minha, nascida de meu tempo adormecido, ou existe nele uma participação de fora, de todo o universo, de sua geografia, sua história, sua poesia?

O arbusto ou a pedra aparecida em qualquer sonho pode ficar indiferente à vida de que está participando? Pode ignorar o mundo que está ajudando a povoar? É possível que sintam essa participação, esses fantasmas, essa Teresa, por exemplo, agora distraída e distante? Há algum sinal que a faça compreender termos sido, juntos, peixes de um mesmo mar?

Donde me veio a ideia de que Teresa talvez participe de um universo privado, fechado em minha lembrança? Desse mundo que, através de minha fraqueza, compreendi ser o único onde me será possível cumprir os atos mais simples, como por exemplo, caminhar, beber um copo de água, escrever meu nome? Nada, nem mesmo Teresa.