Um pouco de Gibran Kahlil...
Cada vez que releio "O Profeta" tenho sensações diferentes. Reler é, de fato, melhor que ler!
O Amor
E alguém disse:
Fala-nos do Amor:
- Quando o amor vos fizer sinal, segui-o;
ainda que os seus caminhos sejam duros e difíceis.
E quando as suas asas vos envolverem, entregai-vos;
ainda que a espada escondida na sua plumagem
vos possa ferir.
E quando vos falar, acreditai nele;
apesar de a sua voz
poder quebrar os vossos sonhos
como o vento norte ao sacudir os jardins.
Porque assim como o vosso amor
vos engrandece, também deve crucificar-vos
E assim como se eleva à vossa altura
e acaricia os ramos mais frágeis
que tremem ao sol,
também penetrará até às raízes
sacudindo o seu apego à terra.
Como braçadas de trigo vos leva.
Malha-vos até ficardes nus.
Passa-vos pelo crivo
para vos livrar do joio.
Mói-vos até à brancura.
Amassa-vos até ficardes maleáveis.
Então entrega-vos ao seu fogo,
para poderdes ser
o pão sagrado no festim de Deus.
Tudo isto vos fará o amor,
para poderdes conhecer os segredos
do vosso coração,
e por este conhecimento vos tornardes
o coração da Vida.
Mas, se no vosso medo,
buscais apenas a paz do amor,
o prazer do amor,
então mais vale cobrir a nudez
e sair do campo do amor,
a caminho do mundo sem estações,
onde podereis rir,
mas nunca todos os vossos risos,
e chorar,
mas nunca todas as vossas lágrimas.
O amor só dá de si mesmo,
e só recebe de si mesmo.
O amor não possui
nem quer ser possuído.
Porque o amor basta ao amor.
E não penseis
que podeis guiar o curso do amor;
porque o amor, se vos escolher,
marcará ele o vosso curso.
O amor não tem outro desejo
senão consumar-se.
Mas se amarem e tiverem desejos,
deverão se estes:
Fundir-se e ser um regato corrente
a cantar a sua melodia à noite.
Conhecer a dor da excessiva ternura.
Ser ferido pela própria inteligência do amor,
e sangrar de bom grado e alegremente.
Acordar de manhã com o coração cheio
e agradecer outro dia de amor.
Descansar ao meio dia
e meditar no êxtase do amor.
Voltar a casa ao crepúsculo
e adormecer tendo no coração
uma prece pelo bem amado,
e na boca, um canto de louvor.
Um espaço para sonhos, utopias, revoltas e outras sensações fora de moda...
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015
terça-feira, 27 de janeiro de 2015
Justiça a outro Mal-Amado.
Justiça a João!
Em breve, Raimundo.
Os Três Mal-Amados
A fala de JOÃO:
Olho Teresa. Vejo-a sentada aqui a
meu lado, a poucos centímetros de mim. A poucos centímetros, muitos quilômetros.
Por que essa impressão de que precisaria de quilômetros para medir a distância,
o afastamento em que a vejo neste momento?
Olho Teresa como se olhasse o retrato
de uma antepassada que tivesse vivido em outro século. Ou como se olhasse um
vulto em outro continente, através de um telescópio. Vejo-a como se a cobrisse
a poeira tenuíssima ou o ar quase azul que envolvem as pessoas afastadas de nós
muitos anos ou muitas léguas.
Posso dizer dessa moça a meu lado que
é a mesma Tereza que durante todo o dia de hoje, por efeito do gás do sonho,
senti pegada a mim?
Esta é a mesma Teresa que na noite
passada conheci em toda intimidade? Posso dizer que a vi, falei-lhe, posso
dizer que a tive em toda a intimidade? Que intimidade existe maior que a do
sonho? a desse sonho que ainda trago em mim como um objeto que me pesasse no
bolso?
Ainda me parece sentir o mar do sonho
que inundou meu quarto. Ainda sinto a onda chegando à minha cama. Ainda me
volta o espanto de despertar entre móveis e paredes que eu não compreendia
pudessem estar enxutos. E sem nenhum sinal dessa água que o sol secou mas de
cujo contacto ainda me sinto friorento e meio úmido (penso agora que seria mais
justo, do mar do sonho, dizer que o sol o afugentou, porque os sonhos são como
as aves não apenas porque crescem e vivem no ar).
Teresa aqui está, ao alcance de minha
mão, de minha conversa. Por que, entretanto, me sinto sem direitos fora daquele
mar? Ignorante dos gestos, das palavras?
O sonho volta, me envolve novamente.
A onda torna a bater em minha cadeira, ameaça chegar até a mesa. Penso que, no
meio de toda esta gente da terra, gente que parece ter criado raízes, como um
lavrador ou uma colina, sou o único a escutar esse mar. Talvez Teresa...
Talvez Teresa... Sim, quem me dirá
que esse oceano não nos é comum?
Posso esperar que esse oceano nos
seja comum? Um sonho é uma criação minha, nascida de meu tempo adormecido, ou
existe nele uma participação de fora, de todo o universo, de sua geografia, sua
história, sua poesia?
O arbusto ou a pedra aparecida em
qualquer sonho pode ficar indiferente à vida de que está participando? Pode
ignorar o mundo que está ajudando a povoar? É possível que sintam essa
participação, esses fantasmas, essa Teresa, por exemplo, agora distraída e
distante? Há algum sinal que a faça compreender termos sido, juntos, peixes de
um mesmo mar?
Donde me veio a ideia de que Teresa
talvez participe de um universo privado, fechado em minha lembrança? Desse
mundo que, através de minha fraqueza, compreendi ser o único onde me será
possível cumprir os atos mais simples, como por exemplo, caminhar, beber um
copo de água, escrever meu nome? Nada, nem mesmo Teresa.
A fala de Joaquim...
E alguém lembra da fala dos outros dois Mal Amados?
Por que? Alguém sabe o porquê?
Segue...
Joaquim:
Por que? Alguém sabe o porquê?
Segue...
Os Três Mal-Amados
João Cabral de Melo Neto
Joaquim:
O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.
O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.
O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.
O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.
Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.
O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.
O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.
O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.
O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.
O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.
O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.
segunda-feira, 26 de janeiro de 2015
A vida
Velho conhecido poeminha, um dos Quintanares... Ofereço aos meus amigos que entendem que "o acaso é um dos tantos nomes de Deus".
Dá-lhe Abujamra!
Dá-lhe Abujamra!
.*.*.*.
sexta-feira, 9 de janeiro de 2015
sexta-feira, 12 de dezembro de 2014
...
Quem me mandou?
Apareceu nos comentários mas,
Não há nome e nem itinerário!
Quem me deixou?
Quem deixou,
- me, sem delongas
sem pormenores
Esteve aqui
Nesse lugar coisa
Nesse tempo vulto
Quem me mandou?
Esse vídeo veio em hora
Acertou me, no agora,
e sem tempo, me deixou.
Quem?
terça-feira, 9 de dezembro de 2014
Ericson Pires me reaparece...
Já postei algumas coisas sobre Ericson Pires aqui.
Compartilhei poeticamente as estranhuras que minha relação com esse cara se deu.
O que aconteceu é que fui, numa certa noite carioca, nos idos de 2012, acometido por uma profunda melancolia... mas melancolia de morte mesmo!, uma tristeza doída, que acabou por me levar, solitário, a uma Lapa agitada.
E a Lapa estava estranha. As pessoas estavam estranhas. Os Arcos estranhos. A música lindamente estranha. Eu não sabia, mas algo acontecia...
Foi então que, sob um dos Arcos, uma espécie de fanfarra de palhaços anunciou: "Ericson morreu!".
Nunca havia lido, visto, conhecido ou mesmo ouvido falar de Ericson Pires! E naquela noite eu sofria, sem mesmo entender o porquê, a morte de um grande amigo.
Um dia, contei esse acontecido a uma amiga carioca que disse ter se sentido um pouco estranha também, na mesma Lapa e naquele mesmo 17 de março de 2012. Disse a ela, inclusive, que ao lembrar desse dia sentia-o etéreo, nebuloso... algo meio onírico. Teria sido um sonho louco, ou mesmo o resultado de pensamentos embaralhados pela libação na Lapa?
Esse fim de semana esta amiga resolveu aparecer. Por e-mail mandou um link do youtube com a seguinte recomendação: "Não foi um sonho. Você estava lá. No anúncio, no exato momento, você estava lá... Preste a atenção no vídeo, no cara que aparece aos 5min14s, com camisa do Flamengo. Era você, amigo! Estava lá..."
É a cada dia mais estranha essa história minha com esse inquieto!
E viva Ericson!
Abaixo, o vídeo referido!
...e o poema lido:
cada janela abre fechada. muitos pedaços não pintam um quebra-cabeças. algumas histórias nunca serão ouvidas. o possível. as linhas dos morros são curvas. os postes multiplicam afetos e eletricidade. o sol vem nascendo sempre. o real. não há nada que seja exclusivo. o doce. o salgado. pouco importa. o que importa? os subúrbios exalam. os corpos exalam. os lixos exalam. a cidade transpira. e tudo segue. sem você ou sem mim. siga. os carros. a luz. os quartos. as janelas. siga. os elevadores. a prisão. o ventilador. a miséria. segue. segue. em você ou em mim. segue. e que se abram todas as portas. o apartamento está escuro. as janelas estão fechadas. você sabe. lá fora é também aqui dentro. tudo segue.
sexta-feira, 5 de dezembro de 2014
Rio
Todo lugar tem sua energia. Boa, ou não, essa energia tem o poder de mudar as pessoas.
O Rio é para mim é uma espécie de Meca. Existe uma força inexplicável nos arredores da Lagoa, nos butecos da Lapa e do Conceição. Na José Linhares eu me perco, na Pedra do Sal, às vezes, me acho...
Há no Rio uma espécie de névoa boêmia que me remete a Ericson Pires, inquieto, agressivo e resignado, perdido (será?) na "Cidade Ocupada"... E como é bom se perder no Rio!
Na Guanabara me sinto outra pessoa. Há um ar de melancolia, de reminiscências de coisas que nem mesmo vivi. Como se houvesse uma espécie de epistemologia poética heteróloga, que me levasse a ter sensações Jobinianas, Vinicianas, Cavalcantianas, saudosas, como se eu fosse o próprio Jobim, o Poetinha ou o Di.
Rio...
Vai Vinícius:
Pois ser carioca, mais que ter nascido no Rio, é ter aderido à cidade e só se sentir completamente em casa, em meio à sua adorável desorganização. Ser carioca é não gostar de levantar cedo, mesmo tendo obrigatoriamente de fazê-lo; é amar a noite acima de todas as coisas, porque a noite induz ao bate-papo ágil e descontínuo; é trabalhar com um ar de ócio, com um olho no ofício e outro no telefone, de onde sempre pode surgir um programa; é ter como único programa o não tê-lo; é estar mais feliz de caixa baixa do que alta; é dar mais importância ao amor que ao dinheiro. Ser carioca é ser Di Cavalcanti.
sexta-feira, 14 de novembro de 2014
Do lugar onde estou...
"Do lugar onde estou, já fui embora"...
Essa frase soa mais forte agora que se foi (foi?... No creo que se ha ido...).
Manoel de Barros! Eu ainda acredito que renovaremos o homem usando borboletas!
Essa frase soa mais forte agora que se foi (foi?... No creo que se ha ido...).
Manoel de Barros! Eu ainda acredito que renovaremos o homem usando borboletas!
sábado, 18 de outubro de 2014
Reminiscências
Aprendi a acreditar num mundo justo! Esse mundo, eu sei, está em disputa...
Desde que me entendo por gente aprendi a aprender Marx!
Eu continuo acreditando na UTOPIA, em Freire, em Che...
Reminiscências...
Um dia, um cara saiu da minha casa pra estudar fora e voltou com um certo Che na cabeça. E com uma boina na cabeça. Uma estrela vermelha...
Minha admiração nesse cara me fez acreditar nessa estrela, e em tudo de lindo que ele trazia dentro de sua boina.
Passei a amar as pessoas que sonham. Passei, sobretudo, a me espelhar nas pessoas que fazem até, se necessário, morrer pelos sonhos!
Hoje o mundo tá virado e a boina se desbotou. A cabeça do dono da boina não sonha mais. E eu sonho um pouco só, um tanto sorumbático!
Che! Camilo! Pombo! Oh!.. companheiros!
Acendam de novo a vela que um dia foi fogueira!
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