Um espaço para sonhos, utopias, revoltas e outras sensações fora de moda...
terça-feira, 7 de julho de 2015
terça-feira, 23 de junho de 2015
Gullar
Reler é, e bato sempre nesta grave tecla, muito melhor que ler. Nunca se lê o mesmo livro duas vezes. É como um rio em que, ao entrarmos pela segunda vez... já é outro rio a passar.
Ler sobre o amor, então!, é muito mais complicado!
Reler sobre o amor é como entrar um rio noutro rio.
Segue, Gullar...
Sobre o
amor
Ferreira
Gullar
Houve uma época em que eu pensava que as pessoas deviam ter um gatilho na
garganta: quando pronunciasse — eu
te amo —, mentindo, o gatilho
disparava e elas explodiam. Era uma defesa intolerante contra os levianos e que
refletia sem dúvida uma enorme insegurança de seu inventor. Insegurança e
inexperiência. Com o passar dos anos a idéia foi abandonada, a vida revelou-me sua
complexidade, suas nuanças. Aprendi que não é tão fácil dizer eu te amo sem pelo menos achar que ama e, quando
a pessoa mente, a outra percebe, e se não percebe é porque não quer perceber,
isto é: quer acreditar na mentira. Claro, tem gente que quer ouvir essa
expressão mesmo sabendo que é mentira. O mentiroso, nesses casos, não merece
punição alguma.
Por aí já se vê como esse negócio de amor é complicado e de contornos
imprecisos. Pode-se dizer, no entanto, que o amor é um sentimento radical —
falo do amor-paixão — e é isso que aumenta a complicação. Como pode uma coisa
ambígua e duvidosa ganhar a fúria das tempestades? Mas essa é a natureza do
amor, comparável à do vento: fluido e arrasador. É como o vento, também às
vezes doce, brando, claro, bailando alegre em torno de seu oculto núcleo de
fogo.
O amor é, portanto, na sua origem, liberação e aventura. Por definição,
anti-burguês. O próprio da vida burguesa não é o amor, é o casamento, que é o
amor institucionalizado, disciplinado, integrado na sociedade. O casamento é um
contrato: duas pessoas se conhecem, se gostam, se sentem a traídas uma pela
outra e decidem viver juntas. Isso poderia ser uma COisa simples, mas não é,
pois há que se inserir na ordem social, definir direitos e deveres perante os homens
e até perante Deus. Carimbado e abençoado, o novo casal inicia sua vida entre
beijos e sorrisos. E risos e risinhos dos maledicentes. Por maior que tenha
sido a paixão inicial, o impulso que os levou à pretoria ou ao altar (ou a
ambos), a simples assinatura do contrato já muda tudo. Com o casamento o amor
sai do marginalismo, da atmosfera romântica que o envolvia, para entrar nos
trilhos da institucionalidade. Torna-se grave. Agora é construir um lar, gerar
filhos, criá-los, educá-los até que, adultos, abandonem a casa para fazer sua
própria vida. Ou seja: se corre tudo bem, corre tudo mal. Mas, não
radicalizemos: há exceções — e dessas exceções vive a nossa irrenunciável
esperança.
Conheci uma mulher que costumava dizer: não há amor que resista ao tanque de
lavar (ou à máquina, mesmo), ao espanador e ao bife com fritas. Ela
possivelmente exagerava, mas com razão, porque tinha uns olhos ávidos e
brilhantes e um coração ansioso. Ouvia o vento rumorejar nas árvores do parque,
à tarde incendiando as nuvens e imaginava quanta vida, quanta aventura estaria
se desenrolando naquele momento nos bares, nos cafés, nos bairros distantes. À
sua volta certamente não acontecia nada: as pessoas em suas respectivas casas
estavam apenas morando, sofrendo uma vida igual à sua. Essa inquietação
bovariana prepara o caminho da aventura, que nem sempre acontece. Mas
dificilmente deixa de acontecer. Pode não acontecer a aventUra sonhada, o amor
louco, o sonho que arrebata e funda o paraíso na terra. Acontece o vulgar
adultério - o assim chamado -, que é quase sempre decepcionante, condenado,
amargo e que se transforma numa espécie de vingança contra a mediocridade da
vida. É como uma droga que se toma para curar a ansiedade e reajustar-se ao status quo. Estou curada, ela
então se diz — e volta ao bife com fritas.
Mas às vezes não é assim. Às vezes o sonho vem, baixa das nuvens em fogo e
pousa aos teus pés um candelabro cintilante. Dura uma tarde? Uma semana? Um
mês? Pode durar um ano, dois até, desde que as dificuldades sejam de proporção
suficiente para manter vivo o desafio e não tão duras que acovardem os amantes.
Para isso, o fundamental é saber que tudo vai acabar. O verdadeiro amor é
suicida. O amor, para atingir a ignição máxima, a entrega total, deve estar
condenado: a consciência da precariedade da relação possibilita mergulhar nela
de corpo e alma, vivê-la enquanto morre e morrê-la enquanto vive, como numa
desvairada montanha-russa, até que, de repente, acaba. E é necessário que acabe
como começou, de golpe, cortado rente na carne, entre soluços, querendo e não
querendo que acabe, pois o
espírito humano não comporta tanta realidade, como falou um poeta maior. E
enxugados os olhos, aberta a janela, lá estão as mesmas nuvens rolando lentas e
sem barulho pelo céu deserto de anjos. O alívio se confunde com o vazio, e você
agora prefere morrer.
A barra é pesada. Quem conheceu o delírio dificilmente se habitua à antiga
banalidade. Foi Gogol, no Inspetor
Geral quem captou a decepção
desse despertar. O falso inspetor mergulhara na fascinante impostura que lhe
possibilitou uma vida de sonho: homenagens, bajulações, dinheiro e até o amor
da mulher e da filha do prefeito. Eis senão quando chega o criado, trazendo-lhe
o chapéu e o capote ordinário, signos da sua vida real, e lhe diz que está na
hora de ir-se pois o verdadeiro inspetor está para chegar. Ele se assusta: mas
então está tUdo acabado? Não era verdade o sonho? E assim é: a mais delirante
paixão, terminada, deixa esse sabor de impostura na boca, como se a felicidade
não pudesse ser verdade. E no entanto o foi, e tanto que é impossível continuar
vivendo agora, sem ela, normalmente. Ou, como diz Chico Buarque: sofrendo
normalmente.
Evaporado o fantasma, reaparece em sua banal realidade o guardaroupa, a
cômoda, a camisa usada na cadeira, os chinelos. E tUdo impregnado da ausência
do sonho, que é agora uma agulha escondida em cada objeto, e te fere,
inesperadamente, quando abres a gaveta, o livro. E te fere não porque ali
esteja o sonho ainda, mas exatamente porque já não está: esteve. Sais para o
trabalho, que é preciso esquecer, afundar no dia-a-dia, na rotina do dia,
tolerar o passar das horas, a conversa burra, o cafezinho, as notícias do
jornal. Edifícios, ruas, avenidas, lojas, cinema, aeroportos, ônibus,
carrocinhas de sorvete: o mundo é um incomensurável amontoado de inutilidades.
E de repente o táxi que te leva por uma rua onde a memória do sonho paira como
um perfume. Que fazer? Desviar-se dessas ruas, ocultar os objetos ou, pelo
contrário, expor-se a tudo, sofrer tudo de uma vez e habituarse? Mais dia
menos dia toda a lembrança se apaga e te surpreendes gargalhando, a vida
vibrando outra vez, nova, na garganta, sem culpa nem desculpa. E chegas a
pensar: quantas manhãs como esta perdi burramente! O amor é uma doença como outra
qualquer.
E é verdade. Uma doença ou pelo menos uma anormalidade. Como pode acontecer
que, subitamente, num mundo cheio de pessoas, alguém meta na cabeça que só
existe fulano ou fulana, que é impossível viver sem essa pessoa? E reparando
bem, tirando o rosto que era lindo, o corpo não era lá essas coisas... Na cama
era regular, mas no papo um saco, e mentia, dizia tolices, e pensar que quase
morro!...
Isso dizes agora, comendo um bife com fritas diante do espetáculo vesperal dos
cúmulos e nimbos. Em paz com a vida. Ou não.
quarta-feira, 15 de abril de 2015
quinta-feira, 2 de abril de 2015
Acordei bemol!
Dormi Leminski...
"Acordei bemol.
Tudo estava sustenido"...
Um deleite orgásmico, catarse... pra quem é, como eu, um kamiquase!
Projeto musical de Estrela - filha do homem - baseado na obra do pai e na música que paira por aí, mesmo quando se ouve o silêncio.
terça-feira, 31 de março de 2015
Peladinha
Peladinha
- Tá no
campinho!!! Respondeu a mãe que, lavando roupa, vigiava o feijão na panela.
João saiu em
disparada pela rua, entrou no Beco de Dona Luzia, sua mãe, e, como um sapo
pulou o murinho do fundo. Menino encapetado! – alguém gritou da cozinha, de
onde vinha um olor delicioso - odor? –
de dobradinha.
Na casa de “Dona
Lourdes de Zé Baixinho” nem quis saber do milho perfumado que cozinhava na
fogão a lenha do terreiro. Subiu o morro, ‘catou um cavaco’ e, como um gato,
chegou até a “rua de cima”, no pé do Cruzeiro. Calçamento pontudo, mais um ‘cavaco’
e a cabeça do dedão ficou pra trás. “Desgraça!!! Peste!!! Capetaaaaaaaaa!!!”. Gemidos,
onomatopéias... e mais um “Capeta!”.
Pausa rápida
e lá estava o claudicante João a iniciar novamente a corrida. Desceu o morro e
chegou na encruzilhada da casa de Leléu. Lá dentro o próprio, com habilidade que
vinha de longe, segurava com os três primeiros dedos da mão um prato de mexido.
De longe se via o ‘zoiudo’! - “ÔOOOh João!!! Oncevai??? João??!?!!”. Nem
ouviu... Já ia longe na trilha detrás das casas do Pirulito, sentido sítio do
João Lucas, a caminho do campinho.
Sentia o
vento no rosto e a estradinha era a própria vida que se abria à sua frente!
Pelos gritos que já podia ouvir conseguiu identificar, antes de vê-los, Tiago,
Rodriguinho e Tássius. Como de fato! Lá estavam os três... “Seus viados! Nem me
esperaram!”.
Sem mais
delongas, fez-se a formação clássica do ludopédio da várzea dos Lucas... Dois
de cada lado, oito pés imundos e quatro cabeças sonhadoras. Naquele campinho no
fim do mundo, quatro amigos jogavam, sem saber, os minutos mais lindos de uma longa
partida...
terça-feira, 24 de março de 2015
sexta-feira, 20 de março de 2015
Saudade, eterno filme em cartaz.
Olha o que acontece quando Moska e Chico César resolvem compor juntos...
Música doída como a própria saudade...
Saudade
Saudade, a lua brilha na lagoa
Saudade, a luz que sobra da pessoa
Saudade igual farol
Engana o mar, imita o sol
Saudade, sal e dor que o vento traz
Saudade, a luz que sobra da pessoa
Saudade igual farol
Engana o mar, imita o sol
Saudade, sal e dor que o vento traz
Saudade, o som do tempo que ressoa
Saudade, o céu cinzento a garôa
Saudade desigual
Nunca termina no final
Saudade, eterno filme em cartaz
Saudade, o céu cinzento a garôa
Saudade desigual
Nunca termina no final
Saudade, eterno filme em cartaz
A casa da saudade é o vazio
O acaso da saudade, fogo frio
Quem foge da saudade
Preso por um fio
Se afoga em outras águas
Mas do mesmo rio.
O acaso da saudade, fogo frio
Quem foge da saudade
Preso por um fio
Se afoga em outras águas
Mas do mesmo rio.
terça-feira, 17 de março de 2015
Drummonstro!
"Amar" e "O amor bate na aorta"...
Aos apaixonados por Drummond e aos apaixonados propriamente ditos!
terça-feira, 10 de março de 2015
Pipa
Foto de Fábio Teixeira
Não queria mais
a pipa. Os dedos cortados de cerol, calejados de cortar taquara, se agarraram
na escadinha de metal que o levou da laje. Nunca mais voltou ao teto de sua
casa e a pipa, solta no espaço, ia, serpenteando entre urubus, no céu azul de
sua infância. De volta ao chão decidiu
ser o ‘homem’ que seu pai, insensível, tantas vezes lhe exigia ser. Ele que, aos
nove anos, nem sabia o que era preciso para ser, então, ‘homem’.
A linha,
partida, deu à pipa liberdade e ao menino os pés no chão. A partir daquele dia,
dia a dia, durante o correr inexorável dos anos, o homem-menino cresceu. E
suou, trabalhou, chorou, não entendeu, correu, bateu marreta, casou, amou?,
multiplicou, testemunhou, juntou, colheu, gastou, envelheceu; se cansou.
E numa tarde
amarela de agosto, os olhos perdidos no céu, o velho-menino se transformou em
uma linda pipa azul.
Catas Altas, janeiro 2015
terça-feira, 3 de março de 2015
Neruda
Uma amiga me disse que "quando a gente começa a curtir mais vinho que cerveja, mais jazz que rock e mais Neruda que Quintana é porque algo de muito grave está acontecendo".
Sempre li muito Neruda e já vi o "Carteiro" algumas boas vezes. Mas é difícil tolerar Neruda muito tempo... É como se recebêssemos a visita daquele amigo 'crisento' e choroso, cheio de conflitos amorosos que não se resolvem, cheio de desamores e amores vãos. No primeiro dia de sua estada nos provoca compaixão, no segundo desespero e no terceiro ânsias de vê-lo em despedida. Ler um típico poema dele é bom, no segundo quase sempre não se quer chegar ao terceiro...
Talvez seja por isso que gosto do "Para nascer, nasci"! Neruda um pouco menos meloso, talvez um pouco mais metafísico, contador de histórias e "causos", mais narrador, menos sofrido.
Mas, fato é que algumas coisas de Neruda às vezes nos pegam pelo pé, de súbito e pronto! Lá estamos nós na sala de casa, o amigo chorando à frente e por dentro uma recíproca vontade de soluçar!
Segue, Pablo!
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